Retrato fiel do meio literário

O ano em que vivi de literatura, do porto-alegrense Paulo Scott, versa sobre Graciliano, um escritor também gaúcho que, alguns meses após se instalar no Rio de Janeiro, ganha “a maior premiação em dinheiro entre todos os prêmios literários do Brasil”. Uma bolada de R$ 300 mil por, como ele mesmo classifica, “uma novelinha arejada e despretensiosa”.

Antes de obter a premiação, o personagem já era um autor de certo renome, com antologias poéticas e a adaptação de um romance para o cinema.

A conquista, no entanto, funciona como o “abre-te sésamo” para o clubinho da cena cultural carioca, na qual desfila em meio a uma fauna constituída de jornalistas, editores, produtores de cinema e de conteúdo para a internet, escritores e colunistas de jornal.

O plano era usar o dinheiro para adquirir um apartamento e sustentar-se durante um ano, tempo em que escreveria o próximo livro.

A primeira meta é cumprida (numa análise precisa do mercado imobiliário do Rio), porém o que Graciliano menos faz é escrever. Gasta os dias num circuito de festinhas e bares, movido por excessos de todas as ordens, pautando os encontros com mulheres pela ambição do sexo.

Scott, detentor de uma prosa afiada e de ritmo contagiante, empresta de si referências para seu protagonista, compondo um retrato fiel do meio literário: o mise-en-scène, os interesses furtivos dos agentes e dos editores, as “panelinhas”, a relação com a imprensa, as editoras que só enxergam o escritor quando premiado num selo menor, o mimimi dos autores que se acham menosprezados, o prestígio calculado pelas curtidas no Facebook.

A figura do autor também não escapa dessa radiografia, desse Paris é uma festa com doses cavalares de a(lu)cidez. De como são suspeitas as oficinas que ensinam a escrever, de como o autor utiliza de traumas do passado para alimentar sua literatura.

Entre relacionamentos passageiros e ex-relacionamentos duradouros, Graciliano deixa um rastro de incompletudes que simboliza a incapacidade de terminar seu novo livro.

Scott aglutina esses vazios para construir um romance sobre a solidão, sobre a permissividade do escritor, denotada na melhor de todas as frases para descrevê-la: “Escritores não se importam em tomar no cu”.

O ano em que vivi de literatura tem valor semelhante ao da novela premiada que o mobiliza: “um livro certo na hora certa”.

***

Livro: O ano em que vivi de literatura

Editora: Foz

Avaliação: Muito bom

Anúncios

Um comentário sobre “Retrato fiel do meio literário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s