Casas vazias que habitam homens

O escritor Ronaldo Cagiano reúne, em Eles não moram mais aqui, contos vencedores de concursos literários e anteriormente publicados em jornais e revistas. Apesar de escritos em tempos distintos, os textos encontram uma unidade, ao abordarem temas reincidentes como o naufrágio humano, a falência dos sonhos, o despertencimento geográfico e o desencanto de uma geração que passou pelo regime militar.

“Eles não moram mais aqui”, “Fosso, fossas” e “Sombras”, que abrem a coletânea, poderiam ser classificados como a trilogia da finitude. Todos os personagens que conduzem as narrativas se encontram no cadafalso da existência, em excursões pela memória numa tentativa de se protegerem da realidade inevitável, de se confortarem numa saudade que não passa do consumo de um tempo perdido.

São “estranhos na própria terra”, mortos-vivos que enxergam “lá fora a vida passando feito uma correnteza”. Não se trata de cegueira ou de autoengano, mas daqueles que, como confessa o narrador, na primeira frase de “Sombras”, descobrem tardiamente o que se chama partida.

Sopra um vento de desesperança por todo o livro. Um descrédito na saúde do organismo social, do casamento, das relações familiares. “Sem natal” é o périplo emocional de um menino pela ausência do pai, nos anos setenta, evocando um período em que empresários que patrocinavam a ditadura incluíam, nas fatídicas listas negras, operários com atitudes chamadas de subversivas.

“Cada dia morria, dando lugar a outro; cada ano era engolido por outro e a primeira década na vida das crianças mudava de pele e a mesma certeza se cristalizava a cada mudança de estação (…)”.

O dilacerante “Esperas”, por sua vez, inverte a motivação, agora colocando uma mãe na busca desesperada por socorro para o filho doente, em meio à miséria da vida, dos hospitais públicos de pronto-atendimento. O conto, a certa altura, quebra com o formalismo narrativo, revelando um escritor com apuro técnico e segurança suficiente para jogar com o léxico e criar um ritmo próprio de (des)compasso poético. Autor também de coletâneas de poemas, Cagiano mobiliza suas tramas com altas cargas de lirismo, por vezes alcançando a intensidade de uma elegia.

Esta potência lírica que contamina a prosa de ficção nada tem de bossa, e sim do um garimpo de um escritor que sabe, como poucos, selecionar palavras e suas influências. Tal exercício fica evidente no conto “Esboços para a (de)composição do naufrágio”, que traça uma jornada pelo território literário, promovendo encontros com autores como Machado de Assis, Cervantes, Kafka e Plínio Marcos. A literatura, Cagiano parece dizer, é a única salvação possível. Se não for para a vida, que seja para seus personagens condenados à “madrugada comprida dos sonâmbulos”.

O mundo é um sono que não vem, uma náusea causada pela ressaca de uma derrota coletiva, o ressaibo daqueles que, vencidos os anos de chumbo, se deram conta de que o futuro é o terceiro gol de Paolo Rossi, aos 29 minutos do segundo tempo. “Fogos-fátuos” é a recapitulação de copas perdidas, de como o futebol é a metáfora das metáforas.

Já o belíssimo “Mar de dentro” igualmente se constrói nesse movimento de transpor o sentido próprio ao figurado, aproximando um filho sem mãe, que desconhece a guerra, a um pai, “um homem partido ao meio, metade gente, metade saudade”, num conto de diálogos rascantes, que tem ecos da cidade de Teerã, capital do Irã.

De fato, Cagiano é um observador de cidades — São Paulo, Brasília —, contudo incapaz de desvendá-las por completo (vide “Paralelo 15: homem diante do mar”), de superar a sensação de deslocamento, pois uma parte latente de si ainda reside em Cataguases, cidade mineira onde nasceu. Em dado momento, o autor sentencia, pela voz de um personagem: “Saio desta cidade para não ficar menor que ela”. E não há dúvida de que conseguiu, tornando-se um dos escritores mais completos da literatura contemporânea brasileira.

 

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Livro: Eles não moram mais aqui

Editora: Patuá

Avaliação: Muito bom

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