O personagem ausente da história

“Mas digam-me: se não há ninguém, como pode alguém contar essa história? Mas isto não é uma história, amigos. Não existe história onde nada acontece. E uma coisa que não é uma história talvez não precise de alguém para contá-la. Talvez ela se conte sozinha. Mas contar o que, se não há o que contar? Então está certo: se não há o que contar, não se conta. Ou então se conta o que não há para se contar”.

O excerto acima, tirado de ‘Conto (não conto)’, de Sérgio Sant’Anna, é possivelmente o mais preciso retrato literário de um recorte temporal. Escrita nos anos 80, a obra suscita a sombra de descrença que pairava sobre a época, amargada pelo baixo astral decorrente da frouxidão dos ideais nascidos no processo de redemocratização do país. O sentimento inexcedível de que não se andava para frente, de que nada realmente acontecia.

Sant’Anna transporta esse travo para a ficção, instigando um questionamento sobre a tessitura da própria narrativa, onde cobra do leitor a participação no fazer ficcional, ao tensionar uma linha fina entre realidade e invenção. Anulado de ânimo, esse leitor não se incomodaria com uma narrativa desfalcada de seu elemento principal. Uma história que, à medida que tenta avançar, diminui, que está aferrada a um momento difuso, eleito ponto de origem, sem que isso determine um desfecho. Mas poderia um enredo se desdobrar sem que o protagonista (narrador) tivesse motivação para que isso ocorresse?

Em seu romance de estreia, Não muito, o jornalista Bolívar Torres espreita a pergunta, deslindando suas imediações para oferecer ao leitor um espectro de resposta, uma insinuação de certeza que dá a medida de quão ardiloso pode ser esse processo. Sua matéria é o desalento, uma rede de personagens-fantasmas que subsistem num tipo de limbo, uma existência exangue, uma letargia que caracteriza um estado de tempo. Não se trata de um romance de geração, contudo, e sim, ainda que de maneira oblíqua, um de formação. Um clima de melancolia e receio que intratavelmente perpassa décadas, uma espécie de angústia geral que é própria da transição da juventude para a vida adulta.

Nesse intervalo está Dalton, universitário que mora com os pais, cujo relacionamento é fundamentado numa inação quase sobrenatural. O pai é uma figura inexpressiva constantemente banhada pela luz fria da tevê, a mãe passa os dias confinada no quarto, flanando numa frequência de devaneios e sedativos. Os diálogos são lacônicos e dispersos, como que sem força para empreender compreensão. A mesma apatia rege o universo do protagonista, acessado por seres descartáveis em suas desnaturações afetivas, onde o passo seguinte tem a impossibilidade de um trauma insondável. Ao saber que o pai de um amigo cometeu suicídio, decide ir ao velório, no entanto passa horas circulando com o carro até chegar ao local, de onde sai sem cumprir o intento. Dalton não consegue ter atitude, há uma âncora dentro de si.

Desse modo, o presente se amua numa zona cinzenta fronteiriça a um futuro inalcançável e a um passado ainda em execução. Conforma-se com o agora, o agora perene e estéril. Sem gana, sem direção. Longe da sua cama, da imagem da “tomada que sempre lhe acalma”, Dalton vagueia pelos corredores da faculdade, por festas, bebe, faz sexo, firma encontros com jovens que compartilham o mesmo despertencimento pela vida. Entre os quais, Daniel, o filho do suicida, que oculta seus medos sob uma conduta inconsequente, e Cecília, colega de sala com quem protagoniza a melhor passagem do romance, onde se estabelece conexão com uma ocorrência pregressa que fornece a Dalton uma sensação que para ele tem o significado de felicidade.

Retomar esse momento específico é o único refúgio em meio ao vazio de tudo, o espasmo que consegue lhe destravar do cotidiano embotado, onde haverá sempre “uma coisa a ser feita, mas sem saber o quê”. Há tintas beckettianas nessa desolação, da mesma forma que evoca o Baterbly, de Melville, o escriturário ‘sem coragem de terminar nem força de continuar’. O fim para Dalton, todavia, é algo inacessível, pois demanda romper as amarras que enxerga como proteção. Incapaz de defrontar a outra margem, ele segue à deriva sem coragem de continuar nem força de terminar.

Bolívar Torres demonstra incrível habilidade ao se fechar numa ideia narrativa e bem utilizá-la para estruturar um mundo assombrado e exteriorizar as aflições de seus personagens. Sua prosa é econômica, porém rica e densa, emulando o ritmo moroso, por vezes hesitante, que embala os atores de sua história. Por trás dessa realidade, no entanto, há nuances e sobreposições de camadas que apontam para interpretações subjetivas. Prova disso, é a personagem Ana Lauren, que se desenha um antigo interesse amoroso de Dalton, mas que pode também ser entendida como a voz da consciência dele. É dela que vem a frase mais impactante do livro, digna de preceder o oportuno título e sua simbologia: ‘Você sabe o que você vai fazer amanhã?’.

Nas últimas páginas do romance, há um jogo de cartas, e a isso se resume a vida de todos ali, um jogo. Porém um jogo sem vencedores ou perdedores, um jogo que segue aberto por falta de motivação. Esse, afinal, é o sinal maior do talento de Bolívar Torres: fazer o leitor entender que a história está em curso, ainda que o protagonista prefira ficar ausente.

 

***

 

Livro: Não muito

Editora: 7 Letras

Avaliação: Bom

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