Intertextualidades do sexo

Em Fingidores, lançado em 2013, o escritor e editor Rodrigo Rosp tomava emprestado o roteiro teatral para arquitetar, com a escalonamento de diálogos afiados e subversivos, cenas protagonizadas pelo professor universitário Caio, um sujeito neurótico e hedonista às voltas com auto-indagações provocadas por temas como fidelidade, amor, libido, literatura e finitude.

Inverossímil é um desdobramento de Fingidores, ainda que não fique claro suas sintonias temporais. De fato, o novo romance parece ter origem na Cena Quatro, em que o protagonista discute com a esposa Lucinha a fragilidade da ideia de traição. Todas as motivações latentes se esfriam para se examinar a relação entre sexo e processo de escrita. Esse é o binômio que mobiliza a camada superficial, a que suporta os personagens.

Os diálogos, as marcações, agora são substituídos por conversas eletrônicas que simulam o formato do Messenger. Nelas, o autor porto-alegrense abusa do linguajar coloquial, escrachado; o erótico à beira do pornográfico que é efeito de uma época em que se tornou usual “mandar nude”.

Os interlocutores são Caio e suas alunas, pelas quais o professor demonstra interesses mais ardorosos que os acadêmicos. Com algumas não supera a mornidão do flerte, com outras divide fantasias e laços mais íntimos. As mensagens intercalam três breves narrativas, nas quais o protagonista contracena com a aluna Mirella, a esposa Lucinha e a ex-aluna e editora de livros, Tati. Com todas negociam, com todas discutem literatura.

Caio leciona Escrita Criativa e a composição textual é o motor para cada encontro, de maneiras específicas. Mirella carece de orientações para aprimorar um conto e se vale de vantagens sexuais. Essa cena irá se mostrar, mais adiante, um texto que Lucinha encontra, desencadeando uma contenda sobre os limites entre realidade e invenção. Por último, tudo o que se passou se mostra o original de um livro que Caio tenta publicar na editora onde Tati trabalha.

Tais arrevesamentos narrativos irão revelar uma segunda camada densa e complexa, na qual Rosp exerce brilhantemente a intertextualidade, a metaficção. A história vai se construindo num exercício de apontar seus defeitos, suas saídas fáceis, seus lugares-comuns; numa tessitura em que o exercício passa a ser a história ou a história de um exercício para a composição do livro.

Desse modo, os limites paginados são rompidos e as mensagens/diálogos se esparramam para a folha de rosto, para as faces internas da capa e da contracapa, para as orelhas. Mais que uma transgressão estética, o efeito contém um olhar sarcástico do experiente editor sobre o culto ao objeto livro, sobre o fazer literário e seus agentes. Partindo de um enredo simples, Rosp traz à proscênio as veleidades das oficinas e dos autores que nascem prontos, aqueles que medem suas qualidades literárias pelas curtidas no Facebook.

É cada vez mais raro o humor encontrar espaço na literatura contemporânea brasileira. Quando bem colocado então, é algo a se celebrar. A certa altura, a editora Tati alerta Caio sobre o fato de ter escrito um livro engraçado: “O público é leve, quer se divertir e ser feliz. Mas a crítica, os literatos, os intelectuais, esses precisam do sofrimento, do drama humano”. Só esse trecho já é um compromisso à leitura.

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Livro: Inverossímil

Editora: Não Editora

Avaliação: Bom

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