O crepúsculo do macho

A Ilíada, monumento poético escrito por Homero em fins do século VIII a.C., narra 50 dias de uma guerra que durou 10 anos. Entre batalhas sangrentas, jornadas de herói e relações entre deuses e semideuses, certamente ocorreram inúmeras brochadas. Sim, brochadas. Ou o caro leitor desconhecia que deuses, semideuses e heróis já brocharam?

Em seu recente romance, Brochadas, o escritor mineiro Jacques Fux intenta edificar uma Ilíada da impotência. Jacques, um alter ego, e seu trepidante escudeiro Jacozinho (é isso mesmo que você está pensando) lançam-se numa saga para mapear os casos de brochada nas histórias universal e literária, para desvendar a gênese (e o Gênesis) do ocaso masculino: “No princípio era a brochada…”.

A aventura épica é entremeada por retratações à ex-amantes. Confissões de fracassos sexuais que, como atenta o personagem, ocorreram sempre na companhia de mulheres. Pois consigo mesmo, vangloria-se, nem ele e nem o Ziraldo nunca negaram fogo. Nunquinha.

Para Jacques, a culpa é das mulheres, em absoluto. “Das musas (nem sempre tão belas)”, de seus cheiros e de suas idealizações. Decaem delas essa experiência vexatória, impossível de esquecer. Fica marcado, para sempre, aquele momento em que só se quer sumir, “voltar ao conforto da sua casa, da sua vida, do seu império que não rui, que nunca despenca e continua erguido como os muros eternos de Troia”.

Como ser um macho alfa, depois do desmoronamento da virilidade?

Fux se vale da erudição e de um trabalho de pesquisa impecável, justamente para tripudiar do relato quase acadêmico, para debochar de tudo e de todos. Você sabia, por acaso, que Hitler era brocha? Que, para além da mitologia grega, há registros de brochadas nas obras clássicas de Herman Melville, Ernest Hemingway, Edgar Allan Poe; no cânone filosófico e até na Bíblia?

Entre invenção e verdade, num habilidoso troca-troca de gêneros literários que vai da autobiografia ficcional à composição ensaística, nada escapa do humor ácido, sutil e contagiante do premiado autor. Tanto que é fácil ler todo o livro numa sentada só (no bom sentido, claro).

E quanto às mulheres? Elas estão lá, obviamente. Agnes, Alice, Juliana…, um time para o qual são endereçados e-mails, num referencial acerto de contas que se abre em meio à ebulição anedótica. Jacques busca se desculpar pelo fracasso sexual, mas acaba por investigar a causa (nem sempre cavalheiresca) da impotência e descobrir que, ao seu modo, até as mulheres brocham.

De fato, no extrato das respostas e contra respostas, o que se revela é uma reflexão sobre o amor. Um estado que está além do sexo, naquele momento exato em que o homem se vira para a mulher, com cara de pobre coitado, e diz: “Isso nunca aconteceu comigo”, e ela se solidariza. Mas, claro, uma história que se ouviu por aí. Como mesmo declara o autor, a primeira brochada é tão traumática “que até se fala dela em terceira pessoa”.

***

Livro: Brochadas

Editora: Rocco

Avaliação: Muito bom

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s