Composições para um instante

Roteiros para uma vida curta, da paulista Cristina Judar, emula a textualidade cinematográfica.

A maioria dos contos assemelha-se ao trecho partido de um argumento desenvolvido para a cena incidental de um longa ou para um curta-metragem, replicando (ainda que com liberdade estilística) a estrutura de um script.

É incrível como a autora consegue traduzir, por meio de fluxos de palavras, movimentos particulares de outra arte, sem recorrer à sinalizações textuais. Passeios de câmera, mudanças de ângulo, planos-sequências, termos técnicos (close up, fade out, voz em off) conformam as narrativas.

Com isso, os textos alcançam uma potência imagética natural, que se fortifica no empenho direcionado ao trabalho de linguagem. Ora numa ordenação frenética de frases, ora na delicadeza dos silêncios, Judar propõe uma experiência sensorial; despertar estímulos extraterritoriais à leitura.

Tal intenção parece confessada no conto “Padronização”: “e por aí vai a sequência de vocábulos encadeados, eles alimentam-se reciprocamente de puro som e pelo simples desejo de continuar a ser, a permanecer e a procriar, o temor da morte provavelmente assola as palavras e os fios, assim como nós a todos. por isso, busco encontrar aquela coisa que, justamente por isso, faz algum sentido”.

De fato, transcender o que está nos limites interiores da história é contar a história. Perseguir aquilo que o leitor nunca vai ter acesso, o desfecho guardado que a autora preferiu não revelar. Seriam como esboços, extraindo qualquer conotação negativa que isso possa conter. Melhor: estudos para a composição de um instante, um retrato; um guia, um guión (roteiro em espanhol).

Judar coleta instantâneos do cotidiano e deles texturiza uma nova realidade. Uma atmosfera de transe, um clima de devaneio que pode se revelar a travessia de um sonho (“A casa de todas as casas”) ou a descrição da passagem do tempo (“Jardim de begônias”).

Ao se prender ao olhar, a prosa ganha espontaneamente um tom confessional, uma combinação suave de poesia e reflexão, germinando contos mais íntimos, onde a própria autora se lança a protagonista, em que (parece) escapulir do plano ficcional.

Será? Ou tudo não faz parte desse jogo de distrações que é a literatura? Uma incursão por espaços entre vazios, narrativas a serem completadas por quem as ouve, a exemplo do fantástico “Nada”, no qual homem e mulher conversam, porém só há acesso a fala de um deles.

Outros contos pertencem a safras distintas, contudo sem destoarem em característica e qualidade. “Certa diversão” e “Alicezinha, Alicezona, Alice, Ali” fazem releituras de clássicos. O primeiro toma emprestado o personagem de um conto de Julio Cortázar, enquanto o segundo dispensa explicação.

Há incidências ainda de críticas e de filosofias espirituais. Roteiros para uma vida curta revela-se, portanto, um mosaico de breves histórias, fatias delas, incompletudes. Uma antologia que não oferece uma coesão temática, mas uma autora coesa, de voz singular e interessante.

***

Livro: Roteiros para uma vida curta

Editora: Reformatório

Avaliação: Bom

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