Universo aquático das palavras

Antologias poéticas com tema não são comuns e, muito menos, tarefa fácil.

Há sempre o perigo de o autor, ao perseguir um time de palavras, esgotá-lo na carpintaria dos primeiros versos e tornar os posteriores repetitivos ou limitados.

O poeta chileno Pablo Neruda tinha atração por poesias temáticas, sobretudo aquelas que se debruçavam sobre as coisas do cotidiano.

Poderia ser uma cebola, uma cama (“A terra é uma cama”, essa frase é magnífica!), ou o voo errático e grafítico de uma andorinha na tela azul do firmamento.

Em “Ode às coisas”, o ganhador do prêmio Nobel faz uma declaração afetuosa aos objetos de uso comum, aquilo que orbita em disposição mínima ao seu redor:

“Amo as coisas louca,
loucamente.
Gosto das pinças,
das tesouras,
adoro
as xícaras, as argolas,
as sopeiras,
sem falar, claro,
do chapéu.

Amo todas as coisas,
não apenas
as supremas,
mas também
as infinitamente
pequenas,
o dedal,
as esporas,
os pratos,
as floreiras.”

Outras paixões de Neruda eram o mar e os seres que a ele pertencem.

Navegações e regressos, coletânea em que o poeta se mostra mais livre para saudar a vida, sobrenada e submerge num universo lírico, líquido, de correntes e de vastos cardumes.

Um livro de água, numa perfeita antítese ao livro de areia de Borges. “Venho do mar, de todos os idiomas”, é um verso confessional que ressoa feito um grito.

Dessa mesma água salina respira a poesia de Adriane Garcia. Reencontrei Neruda em cada página de Só, com peixes, recente antologia da talentosa escritora mineira.

Tal como o poeta chileno, Adriane faz uma ode à água; às espécies que nela habitam e à porção líquida que habita em todos nós. Uma leitura lírica desse cosmo submerso, que ocupamos na preexistência sem memória, em que cada “palavra clama inundação”.

Adriane oferece uma experiência de significações, na qual a natureza marinha condiciona ao léxico guelras e escamas, a fim de produzir uma poética delicada capaz de calibrar o olhar para o além-mar, para o além-ordinário.

A possibilidade de descobrir e de alterar a substância de que é feita a realidade, como visto na tessitura do poema “Aleijão”.

“Um peixe é um pássaro
Sem asas
Mas um pássaro é um peixe
Sem águas.
E não são como nós incompletos.
Porque o pássaro
É um contente emerso
O peixe
Bem submerso
O homem escava
Submarinos
E se alada
A descontento:
Os pés da terra.”

Ao todo, são 55 breves poemas que contêm uma imensidão fluída de magias e de vislumbres.

Imergimos, assim, na condição de homens-peixe, tragados pelo empuxo da prosa virtuosa que não nos torna afogados, e sim encantados.

 

***

 

Livro: Só, com peixes

Editora: Confraria do Vento

Avaliação: Bom

Anúncios

2 comentários sobre “Universo aquático das palavras

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s