A cidade que existe dentro de nós

Das inúmeras leituras possíveis do romance As cidades invisíveis, penso que Ítalo Calvino faz uma reflexão sobre a incapacidade de se compartilhar a memória.

A trama reinventa uma parte da história do navegador Marco Polo que, no século 13, aporta no Extremo Oriente e passa 17 anos a serviço do imperador Kublai Khan.

O autor italiano fabula um diálogo no qual Khan, melancólico devido à impossibilidade de enxergar a imensidão dos seus domínios, solicita ao navegador que lhe sirva de telescópio.

Polo, então, começa a lhe descrever cidades por onde passou. Cidades que têm a geografia da sua memória, próximas e inalcançáveis ao mesmo tempo, que vão se apagando e reconstruindo-se no trânsito entre quem conta e quem ouve.

Há dois trechos que considero significativos para se entender esse jogo literário entre palavra e invenção: “A cidade é redundante: repete-se para fixar alguma imagem na mente” e “A memória é redundante: repete os símbolos para que a cidade comece a existir”.

Calvino consegue, com uma leveza incisiva, captar o processo de identificação entre o caminho e quem o caminha. O movimento que faz com que cada passo se converta em lembrança; o pacto que permite que toda cidade renasça de outra forma em quem a viu pela primeira vez. Uma cidade é invisível se nunca existiu dentro de nós.

Reencontrei esse devir nos personagens de Malditas fronteiras, romance do mineiro João Batista Melo. Em especial em Sophie, uma menina cega de nascença, que transita por cidades assaltadas pelos ecos da guerra, pelo medo e pelo preconceito, mas que mantém ilesa a cidade no interior de si.

Sophie é neta de Petersen Konrad, um velho alemão que veio para o Brasil refugiado da Primeira Grande Guerra; a princípio, em Santa Catarina e, posteriormente, em Belo Horizonte, onde montou uma cervejaria artesanal. Com a morte da mãe no parto, ela vive também com o pai, Hermann, e se prepara para hospedar Erika e seu bebê Hans, fugidos da Alemanha e da perseguição nazista.

Sophie tem como melhor amigo Valentino, filho de um comerciante local que desgosta dos imigrantes, com quem se relaciona num elo fraternal e de coexistência.

Porém, ao contrário da trama de Calvino, é a menina que descortina o mundo para o menino oprimido pelo pai. Sophie, desta forma, é uma espécie de Marco Polo que, sabedor da impossibilidade de se partilhar a memória, oferece a realidade. E esse é apenas um dos grandes méritos do livro de Melo, vencedor do Prêmio Nacional da Cidade de Belo Horizonte.

O escritor mineiro realiza uma primorosa reconstituição de época a partir dos anos 1940, fazendo de seus personagens estrangeiros territoriais e de seus próprios desejos.

Em circunstâncias específicas, todos são abalados por um período de transformações impostas pelo horror da Segunda Guerra, bem como seus efeitos no Brasil, a exemplo da proibição do uso da língua alemã e da política de repressão do governo Vargas.

O que carregam de vivo na memória vai se esvanecendo, em virtude da sobrevivência, queimando feito a fogueira de livros acesa pelos nazistas, apagando o passado de uma cidade que já não pode ser vista, pois tudo o que importava nela desapareceu.

Malditas fronteiras é o recorte de um tempo onde a vitória é desnaturada de qualquer triunfo.

 

***

 

Livro: Malditas fronteiras

Editora: Benvirá

Avaliação: Muito bom

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