A filosofia do romance policial

Pode parecer, à primeira vista, um tremendo disparate buscar qualquer conexão entre Guerra e paz, do russo Liev Tolstói, e Os homens que não amavam as mulheres, do sueco Stieg Larsson. Todavia, tanto no maior épico de todos os tempos, publicado nos anos 1800, quanto no thriller policial que inaugura a aclamada série Millennium, há um elemento em comum: o conflito entre dinastias.

Tolstói e Larsson selam destinos de personagens, a partir de suas cepas, frigindo ódios, fraquezas, amores e assassinatos entre gerações, de modo a recriar a História sob a pele de uma história doméstica e autorretratista, porém tão intensa quanto. Vida e morte decorrem da ventura de sobrenomes em ambos os livros; obviamente, respeitando suas ambientações e relevâncias literárias. Não se pode ombrear uma obra-prima secular, que remonta um período de batalhas que reconfigurou o mundo, com uma trama contemporânea de investigação, mistério e crime.

Ou será que pode?

O paranaense Marcos Peres entende que sim. Em seu livro de estreia, O evangelho segundo Hitler, ganhador do Prêmio Sesc de Literatura, um vórtex conspiratório reformula o que se sabe do germe do nazismo, liando-o ao escritor argentino Jorge Luis Borges. Agora, em Que fim levou Juliana Klein?, Peres mistura Tolstói, Larsson, referências religiosas e filosóficas, Nietzsche, Sartre, A divina comédia, rivalidade entre clãs, Shakespeare, uma dose de erotismo e Bob Esponja. O produto dessa colagem é uma literatura pop, no melhor dos sentidos, que tripudia com os gêneros, a fim de construir um enredo de suspense contagiante e ótimos diálogos, no qual o “porquê” tem mais importância que o “quem”.

Tal qual uma boa narrativa de mistério, a condução fica a cargo de um investigador. Irineu de Freitas, delegado maringaense que “conserva um charme de homem experiente”, é convocado a Curitiba, com o propósito de resolver uma sucessão de crimes que está na genealogia de duas famílias arquirrivais: os Koch e os Klein. A inimizade data a Alemanha ancestral, a Frankfurt de onde derivam conflitos de naturezas religiosa, imobiliária e, sobretudo, filosófica, manchando de sangue a história das linhagens e sua herética fusão, num caso de resultado trágico a la Montéquios e Capuletos.

As gerações presentes dominam os campos universitários curitibanos: “os kleinistas da UFPR e os kochianistas da PUC”. Nesse ambiente de ideias que ocorre o primeiro assassinato, no ano de 2005: a filósofa Tereza Koch é morta a tiros pelo professor Salvador Scaciotto, casado com a também filósofa Juliana Klein. Durante os trâmites do inquérito, Irineu se estima pela pequena Gabriela Klein, a qual passa a presentear com objetos com motivos do Bob Esponja. No entanto, uma relação mais íntima com outro membro da família põe sob suspeita o curso de sua investigação.

Avançamos, então, para 2008, quando acontece o desaparecimento de Juliana Klein. Gabriela vê um homem em sua casa, cuja aparência lembra Franz Koch, marido de Tereza Koch. O conceituado professor, um sujeito intragável que persegue em suas alunas interesses além dos acadêmicos, vale-se de três delas como álibis para se livrar da acusação. Entretanto, em 2011, quando Mirna Klein, tia e guardiã de Gabriela, é assassinada, Franz Koch volta ao radar de Irineu, agora afastado do caso, decadente e odiado pela menina a quem ainda guarda apreço. “O que falar a Gabriela?”, tortura-se.

Peres assenta a complexa tessitura de sua trama nesses três planos temporais, alternando-os em capítulos que se conectam por meios de frases ou de elementos de cena. Apesar de densa, a colocação dos fatos (que reconstrói em detalhes a origem das dinastias) não atrapalha o ritmo ágil, fundamental para o interesse do leitor pelo desvendar do mistério, facilitado sobretudo pelos diálogos caprichados e, tantas vezes, divertidos. A piada sobre vampiros, fazendo troça com o mais famoso dos curitibanos, é ótima. Aliás, as reproduções de cenários (e espírito) locais é também um dos pontos altos do livro.

“Todos os caminhos levam a Curitiba, impreterivelmente. (…) Curitiba é um rio, nesta Curitiba viajo, viajo e retorno para um lugar conhecido, para o lugar que me faz ser o que sou, o que, de fato, eu sou”, reflete o delegado. “Na cidade de haicais arlequinais, de eternos filhos e de vampiros tímidos, ninguém interviria a seu favor”, mais à frente ele próprio conclui.

Regressar, fincar a existência num movimento contínuo de aposição entre passado e presente, tem a função de servomotor para a estrutura, bem como para a motivação das intrigas, das traições, dos (auto)enganos, da reviravolta, do ato derradeiro. A gaia ciência, obra de Nietzsche, marca a origem da rivalidade entre as famílias e cruza gerações, com o mesmo efeito retumbante e funesto, provocando a mesma crença cega no famoso aforismo do eterno retorno, do tempo circular, de que “tudo o que foi, voltará a ser”, de que os filhos serão os pais dos pais.

Peres consegue construir uma boa trama policial, a partir de abstrações filosóficas. E, ainda que esbarre num excesso de repetições, não sabota o prazer da leitura. No ano passado, o escritor B. Kucinski lançou Alice – Não mais que de repente, em que também situa crimes e investigações no campus universitário, envolvendo o corpo docente. Será que, com Que fim levou Juliana Klein?, temos uma nova tendência? Tomara.

***

Livro: Que fim levou Juliana Klein?

Editora: Record

Avaliação: Bom

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