Sem bilhete para o leitor

Ruína y leveza, de Julia Dantas, tem uma trama frouxa, multívaga e perecível ao tempo de leitura. Ao virar a última página, o leitor tem plena certeza de que a jovem autora porto-alegrense o escreveu para si. De que se está diante de uma narrativa dentro de uma redoma de vidro, que impede qualquer relação senão a de mero espectador. O ponto final é realmente o fim da experiência. Nada além. Um livro de areia, evocando Borges.

O mote é dos mais simples: Sara, uma jovem publicitária confrontada pelas responsabilidades da vida adulta, decide abandonar tudo e comprar uma passagem para o mais longe que suas poucas economias permitem. Vai parar no Peru, onde conhece alguém, muda de cidade, conhece outro, muda novamente, participa de uma cerimônia do fogo, conhece mais um e a sucessão de encontros termina numa mina de estanho, na Bolívia.

Esse é o início, de fato. Um desses parceiros de viagem é Lucho, um argentino com quem empreende um relacionamento de picuinhas e de tardio entendimento-quase afeto, que irá convencer Sara a contratarem um guia de ocasião e descerem às profundezas da mina. Embaixo da terra, são surpreendidos por um terremoto, que configura uma atmosfera de tensão e uma (muito) promissora abertura. Mas a expectativa não se cumpre.

O que vem a seguir são relatos de viagem, descrições de paisagens e discussões circulares. Em capítulos que intercalam passado e presente, descobre-se que Sara, ainda em Porto Alegre, terminou o namoro com Henrique, o herdeiro de uma renomada agência de publicidade, e que ficou na fossa, buscando abrigo na casa de Marcela, a fim de ingressar num circuito de festas, porres e pessoas fúteis. Começa a ter um “casinho” com Diogo, aspirante a alguma coisa que não sabe muito bem o que é, que não sabe muito bem o que quer, contudo tem certeza que fora do Brasil é melhor.

Esse é o grande acerto da autora: tratar com mordacidade o expatriamento, incutir em sua protagonista uma postura que pode soar conformista, mas que enxerga com lucidez a decisão pela vida estrangeira. Assim ela fala de um amigo chamado Marcos:

“Estava em Londres, trabalhando como um escravo em um pub, ganhando menos do que precisava para comer, sem fazer nada além de trabalhar e dormir e roubar comida da despensa do tal pub, mas era uma experiência única, ele dizia, eu tinha que ir para lá, nossa, como eu tinha que ir para lá e agarrar a vida pelo pescoço e morar com ele e conhecer as drogas mais incríveis do mundo com o salário risível de um lavador de pratos. (…) Por que no próprio país isso seria uma vida suburbana de merda, mas em Londres é uma experiência inesquecível?”

Julia ainda se vale desse paradoxo, de modo a dar contornos a uma geração dependente, apática, que substituiu “o choro infantil pela reza”, esperando que um deus, à imagem da mãe, “lhe troque as fraldas”. “Queria abrir mão do livre-arbítrio e deixar que alguém comandasse a minha vida pelos próximos cinco minutos ou dez anos”, roga Sara. Ocorre que esses bons momentos se perdem em meio às andanças insensíveis ao leitor, acessadas unicamente por personagens esboçados, incapazes de despertar interesse por suas histórias, mesmo num caso em que envolve um aborto.

Há problemas ainda com a linguagem que, se tem o tom confessional típico de um diário de viagem, derrapa em pieguismos, ao exemplo de “Era doce como ameixas pretas e vestiu a calça cada vez que saiu da cama…” e “despejou verdades brutas no meu colo como se eu fosse capaz de colocá-las para dormir com canções de ninar”. Os avanços temporais são, por muitas vezes, abruptos, e dispensam personagens que não fecham seus ciclos, desaparecendo como que esquecidos, esquecíveis. A própria relação entre Sara e Lucho tem viradas apressadas.

A literatura gaúcha, por questões geográficas, alimenta uma forte conexão com a literatura hispano-americana, mas nada há de autorreferencial no livro. O uruguaio Eduardo Galeano ganha uma menção, ao vir à tona temas caros ao autor, tal a exploração e o aniquilamento da cultura local, porém a crítica é epidérmica, sem força para acalorar o debate. Em alguns contos da coletânea Pássaros na boca, de Samanta Schweblin, interações imprevistas, em cenários arenosos, transcendem o território paginado e sugerem discussões de natureza social. A propósito, uma frase da autora argentina, sacada de uma entrevista ao La Nácion, ganha pertinência aqui: “Um relato não se escreve totalmente no papel, se completa na cabeça do leitor”.

Ao fim de sua jornada, Sara carrega uma mochila cheia de vivências acumuladas no recorte do tempo em que passou além da fronteira territorial, além da fronteira de si. A do leitor, por outro lado, segue vazia.

 

***

 

Livro: Ruína y leveza

Editora: Não Editora

Avaliação: Regular

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3 comentários sobre “Sem bilhete para o leitor

  1. Eaêe. Tu vê só, uma análise vaga e superficial reclamando que o livro é vago e superficial. Espero que esse comentário se encaixe no teu estilo de opinião, aí a gente pode ser amigo. Achei a personagem Sara, da Julia, extremamente complexa. A cada capítulo se descobre uma nova característica dela, muitas vezes inimaginável a partir das já conhecidas. Uma mistura de Mersault com Molloy vestida de Molly Bloom mas com algum elemento indescritível que talvez nem a Julia seja capaz de explicar, justamente o que a singulariza (a Sara). O final “vazio” que tu descreve, pra mim, foi cheio, transbordante de significado. Na superfície, Sara aparenta ter uma simples e clichezística atitude de “decidir tomar as rédeas da própria vida”, “não sofrer mais por ninguém”, coisa assim; mas a questão ficou bem mais complicada pra mim, porque ninguém consegue fazer isso abruptamente; é sempre um processo; então nada garante que após aquele final, Sara realmente pôde se desprender de um passado aniquilador. Algumas vezes, ao longo do livro, a personagem busca uma espécie de satisfação na dor, inclusive física, como naquele banho muito quente; e acho que o mesmo acontece nesse final. Nesse caso, “seguir sozinha” não é simplesmente “se tornar independente”, “superar os traumas”, e sim decidir que a solidão e a tristeza talvez também possam ser maneiras de alcançar determinada felicidade. Tua análise do livro é ridícula; olha as coisas que tu fala: “Ao virar a última página, o leitor tem plena certeza de que a jovem autora porto-alegrense o escreveu para si.” Como tu sai botando a tua impressão do livro como se fosse assim pra todo mundo? Me explica como é que se garante o entendimento perfeito da intenção de um autor? Tu é desses que acredita que o livro tem uma interpretação só? A correta? A verdadeira? O que é escrever um livro para si? Quando tu leu toda a Recherche do Proust tu pensou o quê? Que ele escreveu pra ti? Ahh, esse autor escreveu pra humanidade!! Esse escreveu pra Deus!! Essse escreveu só pra si… por favor! “Trama frouxa”? “Mote dos mais simples”? A trama, o mote, são o que determina a qualidade de uma obra? Um cara tem uma namoradinha de infância, daí casa com ela, daí fica na dúvida se ela traiu ele com um amigo. Não é uma trama simples? Outra: “A literatura gaúcha, por questões geográficas, alimenta uma forte conexão com a literatura hispano-americana”, daonde, brou? Claro que tem as pessoas que fizeram ou fazem isso, mas tu acha que dá mesmo pra sair falando assim da “literatura gaúcha”? Tá dizendo que só porque o estado faz umas fronteirinha e tem uma influência de cultura argentina e uruguaia, daí já tem uma FORTE conexão com a literatura feita em todos os outros países da américa que falam espanhol? É isso mesmo? Como se o Peru tivesse alguma coisa a ver com o Rio Grande do Sul. Enfim, cara, li umas outras resenhas tuas aqui, inclusive de livros que eu não gostei, e achei todas horríveis de tão “frouxas e multívagas”. Se essa aí for a “nova crítica” mesmo, uma crítica impressionista feita por gente metida a besta que não lê um livro duas vezes antes de sair falando, então nós tamo é fudido mêmo! Abraçón

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