O manipulador de bonecos

História da chuva é novo livro de Carlos Henrique Schroeder, depois de As fantasias eletivas, laureado pela Academia Catarinense de Letras como o melhor romance de 2014. No passado, o autor também tinha conquistado o Prêmio Clarice Lispector da Fundação Biblioteca Nacional, com a coletânea de contos As certezas e as palavras.

Em ambos, a literatura é um elemento magnético entre os personagens e os enredos, convocando escritores de diferentes nacionalidades e existências, a fim de percorrer suas ficções para extrair dali outra, referencial, autônoma, vívida. Agora, Schroeder amplia seu campo de colheita, agregando aos livros à arte cênica, o teatro de bonecos, e questionando a parcialidade da arte na vida, os limites entre o mercado e a criação.

O ponto de partida é a morte de Arthur, vítima das chuvas torrenciais que deixaram, em 2008, uma série de cidades de Santa Catarina em estado de calamidade pública. Carlos Henrique Schroeder, escritor claudicante e dono/editor de um selo pequeno, às vésperas de se casar com Deborah, recebe a notícia com o impacto que lhe arrevesa contra o tempo pregresso, a necessidade de rever sua história e a do amigo afogado.

Inicia, portanto, uma série de entrevistas com Lauro, parceiro de Arthur na fundação do Gefa (Grupo Extemporâneo de Formas Animadas), “um dos mais cultuados e irreverentes da cena contemporânea”. O objetivo é reconstituir o passado do homem e iluminar os caminhos que este trilhou até se constituir um artista. Porém, girar essa chave é também dar início a uma trama multívaga e polifônica que cruza destinos, remonta a origem e a evolução do teatro de bonecos no Brasil (com foco nos grupos catarinenses) e, sobretudo, problematiza a capacidade da arte de ser um dispositivo de fuga e de encanto, de (re)interpretar a vida em suas vitórias, seus fracassos, suas impossibilidades.

Schroeder manipula com segurança as ferramentas da autoficção, desviando-se do precipício do lugar-comum, ao fazer desse alter-ego parte funcional da narrativa, por conta de uma prosa requintada, inteligente, que usa a pesquisa e as referências literárias com propósito, nunca de maneira presunçosa. O personagem Carlos, aliás, é aquele desnudo com maior rigor. De uma criança que achou a literatura através de Samuel Beckett (e o tentou copiá-lo em seus primeiros escritos) tornou-se um adolescente recluso, e depois um homem movido por vícios e interesses próprios. “Sou um egoísta, que fique bem claro desde já. Um schroederista. (…) Sabia que com um perfil de Arthur eu conseguiria emplacar um ensaio em alguma grande revista”.

Por meio de sua errância no mercado literário, o leitor tem uma visão do que é comandar uma “euditora”, a importância dos editais e das atividades paralelas para sobreviver dos livros. Já sua imaturidade com as mulheres, levou-o à armadilha do relacionamento com Melissa, uma moça possessiva, dominada por um ciúme doentio. Entre o sexo e as drogas, abre-se uma camada na qual um romance em construção irrompe dentro do livro, questionando o livre-arbítrio e as algemas da escrita. Não por menos, neste caso, o amor e a literatura têm fins trágicos.

Outra camada aparece depois que o diretor teatral Ricardo Satti anuncia um espetáculo dedicado a Arthur, seu inimigo declarado. Trechos da peça vão se intercalando ao enredo vertebral, de modo a mostrar como um roteiro ruim, de causar riso e constrangimento, pode motivar a inveja, o rancor entre os pares, uma linhagem de “picaretas literários” e, ainda assim, gerar aprovação e satisfação no público. Qual é o medidor real da arte: a profundidade literária do texto ou as palmas desbragadas da plateia?

A resposta (ou parte dela) pode estar na autoconfiança, na ciência da autocrítica espelhada nos conflitos do personagem Carlos com sua obra: “Eu lia tudo isso com a boca cheia (…), mas não tinha, nem de longe, o talento do Thomas Bernhard, era só um escritor do interior de Santa Catarina, um caipira, pois você sai do interior mas o interior não sai de você”, constata.

Schroeder, o autor, supera essa angústia e, com História da chuva, confirma-se um dos mais talentosos da sua geração.

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Livro: História da chuva

Editora: Record

Avaliação: Muito bom

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