O sopro falho de uma brisa

A literatura latino-americana resolveu tomar a estrada. Romances recentes, a exemplo de Um, dois e já, da uruguaia Inés Bortagaray; Falar sozinhos, do argentino Andrés Neuman; e Todos nós adorávamos caubóis, da brasileira Carol Bensimon, situam seus personagens num movimento de viagem onde o cenário ao redor se conflui (ou se conflitua) com as paisagens internas.

O vento que arrasa está suspenso num percurso, detido pois o motor do carro quebrou. E não há analogia mais adequada para o romance de estreia da argentina Selva Almada.

O Reverendo Pearson e a filha adolescente Leni se aventuram pelo norte da Argentina, de povoado em povoado, na missão de propagar as palavras bíblicas. Sob “o sol abrasador” de Chaco, um lugarejo ermo, de geografia desidratada, o motor do velho carro não resiste ao calor e para. É, então, rebocado à beira da estrada para a única oficina mecânica a centenas de quilômetros.

Ali é onde ocorre todo o livro, no período de uma tarde até a manhã seguinte. O proprietário, Brauer Gringo, um sujeito grandalhão, enrudescido pela vida, divide o espaço, que soma ainda uma casinha, um ferro velho e um caramanchão, com o adolescente Tapioca e uma matilha de cães. À espera do conserto, entre idas e vindas temporais, a narrativa vai transparecendo os quatro personagens e suas velhas e novas relações.

Leni, que “admira profundamente o Reverendo e reprova quase tudo que seu pai faz”, alimenta um rancor por ter sido separada da mãe, em prol da cegueira de uma jornada santificada. Pearson também tem seus próprios demônios relacionados à figura materna, enquanto a mãe de Tapioca um dia apareceu na oficina e largou o filho aos cuidados de Gringo, que o criou na condição de um empregado.

Tapioca, aliás, é o personagem mais interessante. Arisco, meio abobalhado, tem o comportamento mais canino que humano. Essa consciência imaculada, a disposição de “uma alma pura”, vai despertar um interesse catequético em Pearson, cuja pulsão religiosa não racionaliza atitudes drásticas.

Almada aprisiona seres marcados pelo abandono num ambiente vasto e ao mesmo tempo sufocante, sem lhes dar outra alternativa senão a de lidarem com suas incompatibilidades. A chegada de uma tempestade, o tal sopro devastador, vai tornar o clima mais pesado, apertar uns aos outros e caracterizar o livro um romance de tensão. E aí que o caminho se perde.

Apesar de ser uma narradora poderosa, com trechos de cargas imagéticas incríveis, a autora se prende a formalismos que desvigoram o enredo. Há ali o mesmo sintoma que acomete o chileno Alejandro Zambra, por exemplo: um descompasso entre linguagem e história, a inaptidão de investir em ambas com mesma intensidade. O apuro para com prosa não é o mesmo dedicado à construção do ápice, e tudo se pulveriza e samba no ar.

O vento que arrasa é uma boa viagem durante um tempo, mas o motor falha e sobra o reboque.

 

***

 

Livro: O vento que arrasa

Editora: Cosac Naify

Avaliação: Regular

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