A crueldade da casa e da rua

Não é o caso de parecer reducionista, quando o autor tem a agudeza de animizar seus personagens na extensão de uma frase. Tratando-se de uma coletânea, então, onde cada narrativa resolve-se num recorte avulso de tempo, isso demonstra uma capacidade única de construir tipos que vão revelando suas intenções e sentimentalidades no correr da trama, sem que esta desalinhe ou perca sua força de atração.

Assim, quando o pernambucano Bruno Liberal, no conto O contrário de B., que dá nome ao seu quarto livro, escreve: “Ele pode ser a vítima ou o assassino. Tanto faz. Deve ser os dois”, o leitor se dá conta de que acabou de ser sequestrado para uma alcateia de histórias onde todos os atores são movidos por uma ambiguidade moral responsável por desfechos catastróficos. Uma armadilha inescapável, uma rede de viscosidade contagiante.

A literatura premiada de Liberal evoca, a todo instante, a desgastada teoria de Cortázar sobre o poder de nocaute das formas breves. É impossível sair ileso, há sempre um golpe pausado à espera das últimas linhas. O autor assemelha seu processo de criação a uma fervura entrópica, uma tessitura de pontas soltas, um puzzle onde os tempos se intercalam e encavalam-se, proporcionando uma visão completamente distinta do que acabou ser apresentado. Essa desordem intencional, a dança entre passado e presente, oferece pistas e novos ângulos para se conhecer os personagens de outras formas. Provocar uma experiência de percepções contraditórias, nas quais as máscaras de bom e de mau se alternam constantemente.

É o caso dos contos “Pater familias”, que abrem o livro e compõem uma unidade ao focar na relação decadente de um filho e seus genitores. Ódios reprimidos, rancores, repulsa e tensões carnais impulsionam um enredo em que o papel de vilão pode servir a qualquer um.

Samuel, um pai desprovido de afeto, áspero e malicioso, encontra prazer no exercício de implicar com o filho Artur, um rapaz às voltas com a obesidade e a escolha sexual. A mulher, que não é nominada, também obesa, reclama da falta de encontros íntimos, mas é logo repelida sem trato. Ocorre então o avanço do tempo, e Artur despreza os pais à distância, a mãe sofre de Alzheimer e Samuel agora é um homem fisicamente falido, refém dos cuidados com a esposa, que carrega o peso das memórias, a desunião que instalou no seio familiar. O início e o fim são marcações difusas entre um imenso vazio. “O vazio, o vazio, a mulher deitada na cama, o filho que nunca liga, a solidão que consome suas lembranças”. A morte sonâmbula.

A segunda narrativa interpõe primeira e terceira pessoa, resgatando a substância tóxica dos conflitos de gerações. Arthur (este com h) tem de lidar com um pai irascível, desagradável, que sofre um derrame numa festa e é internado. A rotina do tempo no hospital ressuscita em ambos lembranças de um suicídio, na qual a ciência da culpa não redunda em desafogo, mas na certeza de que nunca virá a redenção. Liberal nunca furta seus personagens da tragédia. Em “Reza para gato morto”, por exemplo, o rogo religioso não absolve a protagonista de ser assombrada pelo fantasma da mãe, sobre o qual confia seus pecados. “Mesmo que o tempo passe, a ferida fica exposta”, conclui, desconsolada.

Além dos limites da casa, a rua é também terreno para o semeio de crueldades. “O contrário de B.”, o conto, pinta de sangue os pavimentos urbanos, os esconderijos de concreto daqueles que nada tem, sequer a sanidade. Um morador de rua, invisível para todos que caminham de sapatos, sofre um rompante de loucura, cujo resultado é o mais violento embate entre classes. O autor conserva o interesse pelos estudos psicológicos, mas agora num tom reflexivo, combinando crítica social e fluxo de consciência, espremendo a dor até soltar dela algo de belo.

Esse esmero linguístico evidencia-se nas narrativas “Possibilidade de estar incompleto” e “Dente de cachorro”, em que o lirismo, o uso de metáforas e de recursos poéticos catalisam encontros menos vorazes, acendem um bulbo policromático nesse universos de sombras espessas cortadas à faca. No entanto não são tréguas, mas cadafalsos que conduzem com suavidade para o mesmo abismo. O formidável “Obedeça ao pai”encerra o livro de volta ao congregamento familiar, minando com água podre os alicerces que um dia mentiram que cabia à eternidade serem todos felizes.

“Sua esposa espera muito do domingo. É o dia que vocês combinaram que ficariam juntos e seriam uma família unida e iriam ao parquinho andar de bicicleta com o filho. Mas agora você a chama assim de incompetente e imprestável na frente dele, do menino. Ela prefere morrer que viver assim sendo humilhada”.

O contrário de B. é uma antologia de contos pungentes, não recomendada para corações fracos e, muito menos, puros.

***

Livro: O contrário de B.

Editora: Confraria do Vento

Avaliação: Muito bom

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