A literatura do Doutor Chapatín

A medicina de Anton Tchekhov nunca foi útil para seus personagens. Tomemos como exemplo três de suas peças mais comemoradas. Logo na abertura de Tio Vânia, o médico Astrov confidencia para Marina, sua velha ama, um esgotamento causado pelo exercício da profissão, pelo qual aflige-se nunca ser recompensado: “(…) E quando não deviam, os meus sentidos despertaram e a consciência começou a apertar-me, como se eu o tivesse morto de propósito… Sentei-me, fechei os olhos — e fiquei a pensar: aqueles que viverem daqui por cem ou duzentos anos e para quem abrimos hoje o caminho, irão lembrar-se de nós com uma boa palavra? Não lembram, ama!”.

Passamos, então, para Três irmãs, num diálogo travado entre o barão Tuzenbach e o coronel de artilharia Verchinin, no qual este reavalia a sua felicidade livre do peso da doença da esposa. “Muitas vezes penso se pudéssemos começar a vida de novo e o fizéssemos de modo consciente? Se a vida cumprida fosse uma espécie de rascunho e a outra – a nova – o texto passado a limpo? Imagino então que todos nós nos esforçaríamos antes de mais nada, para não nos repetirmos. (…) Tenho esposa e duas meninas; minha esposa é uma mulher doente, etc., etc. Mas se pudesse recomeçar a vida, não me casaria. De modo algum”. E, por fim, chegamos em A gaivota, minutos antes do ato derradeiro, quando Trepliov abre uma janela tal a sua alma laiva de amor por Nina. “Como está escuro. Não entendo de onde me vem essa angústia”, e a resposta implicará numa consequência fatal.

O próprio Tchekhov teria sua vida encurtada por uma doença à sua época intratável. Para seguirmos no campo da ficção, podemos resgatar o ocaso da sua saúde em “Errand”, (re)composição magistral do contista estadunidense Raymond Carver. A narrativa tem início com o escritor russo num restaurante chique de Moscou, à convite do amigo e editor de livros, Alexei Suvorin. Tchekhov acaba de se acomodar à mesa, quando, “de maneira inesperada, sangue começa a jorrar da sua boca”. É o primeiro sinal da tuberculose, que o conduzirá para uma batalha inútil contra a morte. O conto, publicado na revista The New Yorker, foi o último de Carver, que também abateu-se sumariamente, no seu caso em decorrência de um câncer de pulmão.

Literatura e doença, quando alocadas num mesmo plano, seja este o da verdade ou o da invenção, não parecem funcionar a outro propósito, senão o de se tornarem antagonistas. Tal qual visto acima, a vitória costuma renegar um lado, o daquele que perde a força vital e se deixa vestir pela escuridão que o desaparece em sua substância de noite. É sempre desleal e cruel, a doença é um livro que vai se apagando.

Muito possivelmente por isso, traga tamanha estranheza e impacto os contos especiais de Micróbios, de Diego Vecchio. O eixo temático é mobilizado por um desfile de disfunções, moléstias, parasitas, vírus, bactérias, entre outros vetores de contágio, porém com os artifícios do humor, da ironia, do nonsense, do grotesco, da confabulação mágica. O autor argentino relega seus personagens a meros hospedeiros, evocando verbetes da medicina (e não necessariamente a de que temos notícia) que são postos como que sob uma lupa científica. O protagonismo pertence ao que não é visto.

Configura-se, desse modo, um universo desconhecido, que subverte a lógica que reina sobre o nosso cotidiano, revelando vidas paralelas, situações insólitas que, embora desconcertantes, provocam deleite e entretenimento. Vecchio é um arquiteto sem ressalvas, que vai montando suas narrativas com notas enciclopédicas, bulas, chistes, parábolas, sagas e o livre uso da ciência. Um mosaico, aparentemente com uma motivação estética, mas que problematiza a fundo a literatura e seu poder de afetação, tanto para quem a produz quanto para quem a consome.

Isso fica evidente em todo a estrutura montada para se chegar a essa experiência satírica. A começar pela apropriação de uma linguagem antiga, um vocabulário rebuscado que torna o texto mais caudaloso, por vezes empolado, próprio do romantismo do século XIX, onde abundam as metáforas, a analgesia onírica, a busca por explicitar um estado de espírito contra o racionalismo desnudo. Vide o conto de abertura, “A dama das tosses”, que acompanha o preâmbulo de Ariadna para uma vida adulta assombrada por pulmões perfurados.

O fantasma-mor é a Sra. Kristensen, cujas “histórias de ninar”, a exemplo de “Histórias para crianças com otite aguda purulenta” e “Histórias para crianças com sarampo”, acabam extraindo da leitura um fator de cura. Ariadna, que cuida de velhos enfermos, foi uma das beneficiadas na infância. “As histórias tiveram o mesmo efeito que uma injeção de iodeto de potássio, mas sem seus efeitos colaterais. O gênio de Dorothea Kristensen soubera combinar os sentidos e os sons em suas proporções justas para remendar a árvore bronquial. Graças aos contos de Dorothea Kristensen, Ariadna começou a gozar de uma ventilação pulmonar aceitável”.

O destino da Sra. Kristensen, no entanto, passa a ser de irreversível letalidade, quando uma febre leva o médico a descobrir “que o pulmão direito estava picado e diagnostica um princípio de tuberculose”. Com a menção à doença, voltamos a Tchekhov e sua presença na literatura de Vecchio. A influência dos procedimentos e dos recursos técnicos adotados pelo escritor russo estão por toda parte, desde um trânsito que parece caminhar para lugar algum ao (des)ajuste sutil da realidade, criando uma consciência na qual o triste e o mortiço cedem brechas para a infiltração de matizes cômicas.

Nesse ponto, alguns dos contos trazem à memória as histórias fantásticas do escritor francês Guy de Maupassant, envoltas por uma atmosfera de agouro que abriga terrores imprevistos, no interior de um sótão ou debaixo da cama. “As damas das focas” e “O homem das formigas desparafusadoras” são pequenas aventuras em que o elemento horror vai sendo vestido por tantas outras camadas de informação que, ao fim da narrativa, o mote inicial troca a sua carga de impacto por uma imitação jocosa. Nos contos do autor argentino, debaixo da cama também está o urinol.

A reconstrução desse mundo visto sob o olhar da medicina e da literatura, apesar de se estruturar em saberes científicos, num glossário que abarca da botânica à fisiologia, é como que aplicado, em doses desmedidas, pelo Doutor Chapatín, personagem criado pelo mexicano Chespirito. A codificação textual é, em si, um meio ardiloso de troçar com a complexidade, quando todos os enredos partem de um argumento simples, fechado na jornada de um personagem. Vecchio conduz o leitor por caminhos insalubres, sem que este nunca vacile em seguir adiante, em desejar o contágio.

Por certo, traria calafrios a Argan, protagonista da peça O doente imaginário, de Molière. “Mas veja, estamos passando por uma época de doenças e mais doenças. E não quero ter a tal da gripe suína, que essa só de comentar me dá arrepios!”, resmunga, encolhido sob lençóis. Em “O homem do bordel”, narrativa fabulosa que encerra o livro, o professor Philippe de Saint-Gervais contraria o pensamento hipocondríaco, defendendo a importância dos micróbios: “Nem todos os micróbios são malfeitores. E mais: os malvados são a minoria. A maior parte dos micróbios é boa. (…) O que seria de nós sem o modesto Rhizobium, que vive escondido nas profundezas da terra, como uma anacoreta, dormindo nas raízes das plantas, transformando o azougue do ar em fertilizante?”.

Micróbios, de Diego Vecchio, é, sem dúvida alguma, um benfeitor. Um dos experimentos mais originais e divertidos proporcionados pela literatura latino-americana nos últimos tempos.

 

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Livro: Micróbios

Editora: Cosac Naify

Avaliação: Excelente

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