Manual para as redes sociais

Caro leitor, caso você esteja prestes a ler esta resenha, saiba que o importante mesmo é que curta a postagem, ao final da página. O fundamental é a curtida, não esqueça. De fato, não precisa nem ler, apenas curta. Curta e, se possível, compartilhe, para que outros, muitos outros possam curtir.

Você também pode deixar um comentário. Dizer que adorou o livro, mesmo sem sequer tê-lo lido. Estamos em território virtual. Podemos ser quem quisermos, afirmar que foi ótimo o que nunca aconteceu. Ninguém vai saber. O que é real aqui? Você é? Eu sou? Não importa. Vamos combinar o seguinte: eu escrevo e você curte, ok? Curte muito, várias vezes.

Eu curti os contos de Mais laiquis, de Marcio Renato dos Santos. Curti muito. O autor curitibano, um dos grandes nomes contemporâneos das formas breves, trabalha com doses de sarcasmo e de facécia o modo de operar da humanidade pós-redes sociais, transfere para o plano ficcional os comportamentos e as (web)relações. Um livro oportuno e divertido que não examina uma geração, mas seus sintomas.

Pisca a todo instante aquela frase-isca na página inicial de um famoso livro de rosto: “É gratuito e sempre será”. Apenas com uma ingenuidade forrestgumpeana para se achar que algo é gratuito. Marcio Renato aponta essas consequências: o autoengano, a fuga, o alheamento, a dependência.

Em “Off-line”, uma mulher pensa sua condição de amante num quarto de hotel, ao lado “do homem da sua vida”. O peso moral sucumbe ao fato de ter “uma vida boa e não poder compartilhar”. As horas avançam num clima de pesadelo, de fatalidade, mas o que continua a incomodá-la é a impossibilidade de se exibir: “Acho que até deixaria de pensar em selfie e postagem no Face se fosse possível passear ao lado dele”.

A busca por visibilidade é um dos pontos mais recorrentes. “O próximo show”, erguido sobre diálogos precisos, infiltrados por trechos de Let it be, dos Beatles, é sobre uma banda de rock que nunca teve sucesso e tampouco não enxerga o fracasso. “Teletubbies (Que canta o discurso alheio)” acompanha a tentativa surreal de um cantor de punk se aposentar, enquanto humilha a atendente via celular e contabiliza curtidas: “A barnabé as-su-me que não me conhece”.

Ao passo que “Tendência” mostra a tentativa de um jornalista de entrevistar um curador que sai com respostas rebuscadas e evasivas, sendo que ele próprio “já escreveu mais de cem, não, duzentas, trezentas, centenas de reportagens a respeito de assuntos que não conhece”.

Marcio Renato critica, com humor ácido, os valores nublados, a decisão de crer no que é posto, sem o mínimo esforço de apurar os fatos. As narrativas, executadas por frases curtas e ágeis, perseguem intenções claras e muito bem construídas. Os primeiros parágrafos já contextualizam o leitor, muito embora o desenvolvimento da trama possa levar a caminhos inesperados.

Em “Bode Careca”, o desfile (literal) de um zoo humano ironiza a celebração do autor, o movimento para fora do anonimato que não passa de uma dança em círculo e, mesmo assim, desperta a inveja alheia. Motivação semelhante conduz “Chão de giz”, quase uma crônica sobre a arte enquanto fogo-fátuo.

Mas o que é considerado sucesso nos dias atuais? Escrever um livro de qualidade literária exaltada pela crítica ou um que tenha apelo comercial, que atraia milhares de leitores, que dispare o contador de curtidas? “Mais laiquis”, o conto que empresta nome à antologia, coloca em voga tal discussão, na pele de um escritor-celebridade, chegando à conclusão de que, no caso da literatura, o livro já não é tão necessário.

“Afinal, mais do que o conto, o que me interessa é compartilhar no Face o link do texto publicado no jornal. É que preciso de laiquis, de muitos, muitos laiquis pra sorrir e me sentir feliz, muito feliz”, reverbera o personagem-narrador.

Bem, se você leu a resenha, o botão de curtir está ainda mais próximo. Não deixe de curtir, o importante é a curtida. E procure também o autor nas redes sociais, curta seu perfil, compartilhe suas postagens. Curta, várias vezes. Para além dos contos contagiantes, Marcio Renato merece muitos laiquis por mostrar que a opinião se reduziu a um clique.

 

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Livro: Mais laiquis

Editora: Tulipas Negras

Avaliação: Bom

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