As covas abertas do tempo

Enquanto os livros de histórias fazem uma varredura dos fatos, a literatura ficcional procura esfatiá-los. Recorta pedaços do tecido temporal de modo a utilizá-los como cenários para personagens constituídos por aspectos e singularidades de pessoas que viveram a época na qual foram alocados.

O segredo de Yankclev Schmid, de Júlio Ricardo da Rosa, está assentado sobre três períodos distintos: a Alemanha da Segunda Guerra Mundial em seus dias derradeiros, a Argentina dos anos 50 e o Brasil militarizado da década de 70. E, a despeito da narrativa multívaga, os atores inventados para povoar a história refletem, com precisão, cada momento a que se contextualizam.

Há, decerto, uma construção minudente de tipos, da conformação física à emocional, que torna o requinte histórico um elemento agregador. Uma inter-relação poderosa entre plano e personagem, que emparelha o romance aos premiados Agosto, de Rubem Fonseca, e Nihonjin, de Oscar Nakasato.

O ano é 1945. Estamos no campo de extermínio de Bergen-Belsen, rasgado em covas expostas. A derrota dos nazistas é iminente e os ingleses avançam contra o território inimigo. Alguns soldados alemães desertam, outros preparam-se para a rendição, porém um grupo resistente aproveita das últimas horas para somar mais mortes às vítimas do Holocausto.

Um desses é o jovem tenente Benno Metzger. Transferido da burocracia para o trabalho operacional, recebe ordens para abater os prisioneiros; “Antes os judeus que nós”. Assim, domado por “essa espécie de mantra”, adentra um dos barracões à procura de sobreviventes.

De repente, descobre uma “forma humana que tentava se esconder entre os defuntos”. Aproxima-se e uma intenção de fuga ocorre. Metzger a detém, prepara-se para atirar, mas o judeu, de uma idade próxima à sua, cai a seus pés e clama por misericórdia. Diz que pode pagar caro por sua vida, que possui algo extremamente valioso para oferecer ao oficial.

Esse é o fio condutor da trama. E, diante do título que faz alusão a um mistério, é preciso que o resenhista tenha cuidado para não entregar demais os acontecimentos sequentes.

Metzger aceita a proposta, embora receie que seja capturado. O judeu, chamado Yankclev Schmid, o instrui a mudar de roupa com um dos mortos, mentir que é um preso recém-chegado. O plano é montado, todavia Yankclev insiste em achar sua irmã, antes de se apresentarem aos Aliados.

Encontram Ania em condição crítica. A frente inglesa contém médicos que erguem tendas-enfermaria, onde atuam de imediato contra a debilidade dos corpos esqueléticos. Ela se recupera e, dias depois, o trio é colocado num comboio e despachado em Colônia, cidade circunvizinha à terra natal dos irmãos. Daí se inicia a primeira parte da história, governada pela recomposição, pelo asselvajamento, pela fome e, sobretudo, pela astúcia e resiliência do jovem judeu.

Ricardo da Rosa demostra uma capacidade extraordinária de transfundir a realidade na ficção, reconstituindo o painel da guerra, seus vícios e horrores, os aspectos demográficos, sem tropeçar num didatismo histórico. Os homens são os destroços das batalhas, dos bombardeios que ecoam em seus futuros empoeirados. Descrever como lidar com a não-vida, com a queda dos dias, faz com se introverta o ambiente, forçando o leitor a também caminhar pelo mundo em ruína. Isso se dá pelo cuidado com a prosa que leva a uma imersão no texto, paginado numa atmosfera de suspense e drama.

Outro mérito é a ligeireza e a habilidade com que o autor opera as transições de cena, algumas em saltos temporais de décadas. Passado e presente se revezam, sem que se valha de recursos tipográficos ou de reprises para avivar fatos na memória. A fluidez compassa a narrativa.

Desse modo temos Yankclev e Ania na Buenos Aires de matizes europeias e receptiva aos imigrantes (o que aconteceu com Metzer?), agora proprietários de um antiquário e vivendo uma rotina prosaica. Ali iniciam um ciclo de venturas e estabilidade, contudo os fantasmas da guerra voltam a assombrá-los.

Decidem, então, mudarem-se para o sul do Brasil, para a cidade de Porto Alegre. E, nesse novo arco, o romance ganha um ângulo distinto, trocando posições e focos narrativos.

Yankclev, que detinha o papel absoluto de protagonista, passa a ser coadjuvante na história de um jovem médico, orientado pelo bom samaritanismo, que se vê metido no covil de vilanias do regime militar. O jogo de máscaras, que era usado para a sobrevivência, passa a servir a assassinos e traidores. Uma conspiração cujo objetivo é trazer à tona o segredo de Yankclev Schmid, conectar o começo e o fim de uma trama que discute os vários graus de prisão.

Ricardo da Rosa entrega um magnífico romance histórico, calcado num severo trabalho de pesquisa, no qual personagens reais e ficcionais se cruzam. Diante da incapacidade de a literatura dar conta da vida, a imaginação cria uma verdade para onde se olhar.

 

***

 

Livro: O segredo de Yankclev Schmid

Editora: Dublinense

Avaliação: Muito bom

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