Os mamíferos mecanizados

Temas caros aos artigos, ensaios e crônicas, o capitalismo, o consumo em massa e os mecanismos de opressão trabalhista são severamente preteridos pelos ficcionistas contemporâneos brasileiros.

Todo maldito santo dia, coletânea de estreia de Paulino Júnior, refuta tal desinteresse e mostra como são matérias-primas ricas para a escrita inventiva, quando usados com perícia.

Nos vinte contos, um ou mais personagens são assolados por necessidades materiais que reificam suas vidas, seus sentimentos, suas percepções de mundo, tornando-os não apenas os compradores compulsivos, mas também as mercadorias. Animais mecânicos, mecanizados, produtos em larga escala de uma sociedade autofágica.

O tom se revela logo na primeira narrativa, a autoexplicativa “Mercadoria”. Uma voz robotizada, imanizada por uma “consciência de vitrine”, descreve seus dias à venda, em meio a um estoque de sósias. São manequins, homens fabricados no atacado; quiçá peças de uma máquina industrial. A humanidade submetida a regimentos de um comércio selvagem, destituída de alma, o orgânico fundido ao metal.

Isso fica mais evidente no conto seguinte, “Maquinomem feliz” (pescou o trocadilho?), no qual um empregado de uma rede de fast food integra porções líquidas de si na composição dos lanches e, por conta dessa dedicação anormal, inicia uma escalada hierárquica na empresa.

Paulino não recorre a discursos politizados, não levanta bandeiras partidárias, apenas dá relevo ao absurdo que, de tão reprisado, perdeu seu poder de indignação, de choque, de contestação.

“Catálogo de faces” evidencia essa indistinção entre a simulação da vida e a vida, em como o plano virtual passou a ser aceito como existência. O avatar que substitui a materialidade; uma rede com milhares de amigos, porém nenhum ao lado.

“Coisa de criança” dá conta da irreversibilidade desse processo. Um grupo de crianças brinca de elencar nomes de marcas. Até que um menino surge sugando um geladinho e todos se afastam, exilando-o.

Aí está o retrato de uma geração que se reconhece mais governada pelas empresas que pelos homens. A impropriedade coletiva significada na confissão do narrador-personagem de “Atividade terapêutica”: “Eu era uma ferramenta”.

Há um olhar crítico sobre a civilidade que necessita do cidadão para ser propagandeada, mas se alimenta dele, transforma esse cidadão, recrudesce-o, cava-o tão fundo a ponto do buraco no peito saltar aos olhos. Os desajustados do sistema, os tipos comuns aos livros de Chuck Palahniuk. São agentes de uma realidade que não precisa ser romanceada para chocar.

Assim estão “O inimigo” e “Conto desentranhado de uma notícia de jornal”, em que os fatos (pedofilia, violência, corrupção, abuso de poder) são suficientes para sobrecarregar a narrativa.

A sociedade está destruindo o homem ou o homem está destruindo a sociedade? Seja qual for a resposta, os efeitos colaterais podem ser conferidos em ambos os lados.

No excelente “Rock pesado”, um jornalista instigado por uma crônica sobre a classe média, seus medos e suas ameaças, retorna à cidade natal, justamente quando a banda de heavy metal da qual era fã fará um show comemorativo. Do reencontro com velhos conhecidos, ele rumina desilusões, arrependimentos e percebe que o futuro continua tão incerto quanto antes.

Paulino cria seus personagens ao avesso, a partir de sombras. Oprimidos, sem gana para voos maiores, resignados à condição de peças substituíveis, ao mundo que produz e consome desenfreadamente, que não para nunca e, por isso, se encontra prestes a ruir.

Com uma prosa instigante e afiada, os contos de Todo maldito santo dia mostram que, depois do desmoronamento, o que resta é a vida.

 

***

 

Livro: Todo maldito santo dia

Editora: Nave Editora

Avaliação: Muito bom

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