Ramalhete de palavras pálidas

Uma intenção maior mobiliza os contos de Violeta velha e outras flores, de Matheus Arcaro: atribuir às palavras poderes imagéticos. Antes do tema, da estrutura, a preocupação é com a linguagem. Reificá-la, torná-la gatilho para variações sensoriais, elevá-la a um grau estético que submete a realidade a um plano abstrato. Algo como uma planta arquitetônica onde as paredes são projetadas “com as intimidades à mostra”, para somarem a si uma beleza que está na plasticidade da paisagem ao redor.

Assim, temos um autor que não deseja apenas contar histórias, mas representá-las. Isso fica evidente logo na primeira parte da antologia, seccionada em outras cinco. Em “Casulo rompido”, acompanhamos a incursão por um bosque pelo ponto de vista de um menino ainda “deficitário de dentes”. Toda a explosão de cores, de formas, de sons é narrada sob uma prosa intencionadamente pueril, sem que se derrape na pieguice. Outra abordagem interessante fica por conta do confronto. Em como o autor troca de posições adultos e crianças, criando uma ruptura brusca.

Tal efeito, de fato, é reprisado em vários momentos do livro. Uma atmosfera suspeitosa, na qual o leitor é enganado pela polifonia. O ápice está no ótimo “A fúria sem som”, uma referência aos procedimentos faulknerianos. Valendo-se de idas e vindas temporais, o autor apresenta duas histórias que se sobrepõem, narradas por um núcleo familiar. Em primeiro plano, está a voz de um deficiente mental, sendo preparado para o banho. Ele questiona, a todo momento, o paradeiro de uma antiga cuidadora, nas mãos ásperas de outra. Por quê? A resposta está assentada em mentiras, desamparo, violação moral e um final desconcertante.

As flores de Arcaro não habitam a cromaticidade das fotos, mas seus negativos. Por mais que insistam na pulcritude do léxico, numa sonoridade harmoniosa, roçagam, sob suas pétalas murchas, silvos de uma elegia. É o que ouve o mendigo que anseia um sonho de padaria, pois a crueza da vida é destituída de qualquer elemento onírico, em “O sonho”. Da mesma forma que Paulo, protagonista de “À beira do abismo”, esboroando em seu casamento, despencando de si. “Sentido” e “Até que a morte os separe” localizam personagens no mesmo limite fatal. Deformando a citação ao romance “Água Viva”, de Clarice Lispector, são homens e mulheres terrivelmente algemados em relações que não mais lhes pertencem.

A antologia cede espaço ainda para a incidência do surreal, do absurdo cotidiano. Um sujeito “desencanta” e é recebido no Céu por um tipo de guia de visitação, que lhe desvela o teatro etéreo, em “Está tudo escrito”. “Maquinando” derrama-se na corrente de um delírio, enquanto “Noite nua” é o encontro de um homem com a desclaridade do próprio corpo. Já “Violeta velha”, que motiva o título, recorre à memória para conduzir a velhice ao julgamento de erros pretéritos. “Com o passado entre os dentes, Timóteo dessentiu os membros. Observou o olho, gineceu de uma violeta velha, murcha e úmida, até o sol vestir a capa da noite”.

O livro não oferece uma unidade temática, mas narrativas que formam um mosaico. Diante do fato de ser uma estreia, fica claro que é uma reunião de contos de diferentes idades, que compreendem o primeiro impulso ficcional até o momento da publicação. O que é bem instigante, e acaba fazendo de Arcaro um autor com capacidade para ser muitos.

 

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Livro: Violeta velha e outras flores

Editora: Patuá

Avaliação: Bom

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